terça-feira, 5 de julho de 2011

A escrita

No limite do improvável, a calma se dissolve em lástima, a lágrima já não sabe que aflige. E enquanto o ser humano é só, ele existe. E quando sente-se só, está triste.

. . .

Não tenho tempo para sentir, não tenho tempo para saber. Não me pergunte nada, não sei responder. Também não me responda, não irei entender. O tempo urge. O vazio surge e continuo sem perceber: por onde andei, onde parei, como me reconhecer? Onde estão meus livros, meus discos, minhas letras borradas, meus amigos? Onde está quem eu era, quem eu sou? E o que será de quem eu serei se hoje nada sei? Estou aflita e perdida. Quem me socorre? A escrita, a escrita! Com ela começo a sentir algo: escuto algum chamado, vislumbro algum abrigo... mesmo que ainda desconhecido. Enfim, ao lado dela posso tentar descansar em paz.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Desabafo noturno (reflexão sobre os últimos tempos)

As tragédias estão aí
Basta olharmos pelas frestas
Pena que enquanto uns sentem dor
Outros dão festas

Até pode parecer clichê
Todos falam sobre isso!
Mas a contradição humana
Tem um peso aflitivo

E tudo isso pesa muito em mim...

Dói demais ser
Ser humano
E temo contradizer:

Mas sou contraditória!

Sou humana, apegada à memória
Individual e coletiva

Passiva

Queria ajudar mais
Agir, doar...
Mas só consigo lamentar
O fato de ser pouca coisa
Pequena, uma só
Difícil de desmembrar
Mais difícil ainda de somar
Que num dia chora... importa?
E no outro mal acorda e já sorri... hipócrita?

E repito: tudo isso pesa muito!

Falo por mim, mas muitos esquecem
Que o hoje amanhã já será história
Então porque não chorar a glória
E vibrar a perda?!
Se tudo muda, vamos inverter logo todos os valores!
E quem agüentaria?
Quem sorriria num abismo?
E se naquela mesma festa simultânea
Alguém chorasse ao lembrar da dor da perda?
Faria sentido?

“Só sei que nada sei”

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Inconsciente Coletivo

Poesia pescada no ar
Verso-peixe de um poeta
Fisgado pela palavra
Cores oscilantes
Das escamas, das carpas!
Seiva morna cultivada
Dentro da própria casa
Nasço e morro todos os dias
Para escapar da rotina
Poesia pescada no ar
É metonímia!

Descanso

Lua do sorriso fino
Numa de suas hastes
Não caberia um passarinho
Lua que oscila tanto
E vê modificar ao sabor do tempo
Cada motivo e cada pranto

Hoje, lua magra
Amanhã, roliça
Quando uma nuvem passa, espessa,
Tudo é tão fugaz que instiga
O movimento mais veloz a parar

Lua fina que virou meia lua
Que esboçou meio sorriso
Que se tornou um ponto de luz
Quase uma estrela a se apagar

Lua fina que foi dormir atrás do morro
Enquanto eu - não mais uma criança -
Voltei a sonhar...

Teimosia

Tô comendo um pão de queijo
Mas deveria estar escrevendo
Meu dever-ser (kantiano) é a escrita.

Um dia, meu inconsciente me acordou dizendo:
"Escreva!" Tomei um susto, mas gostei!
Pronto. Escrevi.

Mas é triste saber que, às vezes, a preguiça é teia...

Assombro

Não há teto
Não há como!
Não há pano de fundo
Sem cenários, sem entornos
Meu escopo é viver

Cada vez mais tiro máscaras
Leio Jung
E esqueço absurdos
Faço festas - internas e externas -
Vibro à beça! Me atiro no escuro...
Todo mundo me lê.

Sei ser frágil
Sei ser forte
Sei também sorrir e sofrer

Mas o melhor de ser sempre foi escrever (o melhor do ser)!
E não escrevo quase nada sobre mim
Escrevo mais sobre "nós" e "você"

Não há teto
Não há como!
Não há pano de fundo
Sem cenários, sem entornos
Meu escopo é viver

Invisível

Ninguém vê o corpo?
Ninguém vê o corpo
Estendido no chão

Sentado ou curvo
Ajoelhado ou sujo
Pedindo ou mudo

Ninguém vê o corpo no chão!
Ninguém, ninguém...

Só vêem o copo cheio
O corpo bronzeado
O carro blindado
A carteira e o recheio

Mas ninguém vê o corpo estendido lá no meio

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Ballet

EU E TU
TU E EU

E E E

POR ONDE
SE ESCONDEU?

EU EU EU

CADÊ, CADÊ TU?

TU
TU
TU...

NINGUÉM MAIS ATENDEU!

FOI TU?
FUI EU?
FUDEU!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Praxis

Beijos e compassos
Abraços
Órgãos acelerados
Emoção etérea
Vícios, brechas
O amor
Às vesperas

Dutos e redutos
Sulcos
Vermelhidão tardia
Um xis no mapa
Pulsos, taças
O rompimento
As cascas

Cada ser é só.
Um só!
E sempre só de palavras...

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Desconstrução

Âncora
Ânsia
Não estava em seu lugar
À beira do vazio
Da precipitação
Sem palavras
Até sem lágrimas!?
Sem imaginação
Sem bater de palmas
Sem som
Parou de se impressionar
Ficou surpresa
Via de tudo
Mas não era a mesma
Cortes abertos sem dor
Linhas tênues
Sem amor de nenhuma espécie
Só sendo
Sem tempo para ser
Emoção e sentimento
Sem tempo
Sem tempo
Pêndulo