domingo, 22 de fevereiro de 2009

Hoje falarei de Libertação

Liberdade é poder partir
- Mesmo tarde -
É poder sentir
o que estava engessado, escondido
Liberdade é estar bem consigo
É estar só e feliz
É estar com e completo
É estar sem e completo também

Liberdade é dizer amém para os próprios pecados
E não somente enterrá-los
Liberdade é perdoar-se, doar-se a si mesmo
Liberdade é lampejo de inspiração
Liberdade é a profundidade do pensamento e da ação
É o próprio ato da criação humana: liberta, solta, como uma ave selvagem
É dar passagem...
Seja ao que for
Que entre novos amigos, planos, viagens, um novo amor!
O que importa é a liberdade
Liberdade é a coragem de assumir quem se é
Liberdade é livrar-se das máscaras
Liberdade é pura contemplação
São novos horizontes

Novas possibilidades
Liberdade também é arte
O que importa é a liberdade:

Deixar correr... Libertar-se das amarras...

Das correntes escravizantes da praxe, do dito, do anotado, do gravado, do piegas, do clichê, de algumas garras crueis da sociedade.

Liberdade é ler, pesquisar, escrever, falar o que se quer!
Por isso quero DIZER BEM ALTO: Libertem-se! Antes que seja tarde...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Memória desembestada

Lá em Pernambuco
O sotaque contagia
Foi assim comigo
É assim com quem visita

Não importa se é viagem longa
Ou se é curta a estadia
Não importa se tu tem resistência
Ou se tu força na cantoria

Só sei que o pernambuquês é quase uma nova língua

Mas não estou aqui para falar de falação
O que quero relembrar
É motivo de grande inspiração

Já ouvi muito repente
Cordel também já li
Já dancei frevo com uma de gente
Muitas ladeiras subi

Já comi carangueijo
Provei dudu, não esqueci
Tapioca com queijo
Suco de siriguela, cajá, sapoti

Já brinquei de almofadinha
- No Rio ninguém sabe o que é isso -
Já subi em árvore, chupei cana
Amei e fiz muitos amigos

Já dancei forró, arrastapé e baião
Já soltei peido de véia
Em muita festa de São João

Já trelei um bom bocado
Com meus chegados, primos e primas
Foi cada viagem massa
Itamaracá, Paudalho, Porto de Galinhas

Falando em família, o número deixa qualquer um abestalhado

É uma vó com nove filhos
Seus netos, seus agregados
São muitos entes queridos
que já dormem noutro telhado...

Hoje sei que o céu de Olinda
É sem dúvida o mais estrelado

Também sei que a rima é forte
Intensa e sequenciada
Mas se eu não fizer assim
Não farei cordel nem nada

Agora falando em Recife, cidade que nunca esqueci

Que carrega o peso leve
De um passado que já vivi
Foram muitas as risadas
Sonhos e meninices
Da minha cidade adotiva
Guardo tudo o que um dia disse:

"Recife, me acolheste e me ensinaste que a vida é pura e simples, a vida é arte!"

De todas essas reminiscências
É fácil dizer o que ficou para sempre guardado:

Saudade... e um restinho de sotaque, claro!



Rio de Janeiro, 07 de fevereiro de 2009.
Michelle Lemos Kaplan

Porta-retrato

A verdade é uma falácia
Tudo o que jurou querer para hoje
já não quer mais
Tudo o que negou querer para amanhã
é o que mais quer
Tudo o que disse ter feito ontem
Esqueceu...

Porque o contrário se esconde em cada afirmação

Porque a vítima é também algoz
A verdade anda de braço dado com a mentira
Sendo que dentro de cada verdade arde uma vida
E dentro de cada mentira uma ira

Procure sempre a verdade para viver mais
Independente das mentiras que nela habitam
Desinverta todas as falácias
E seja capaz de amar as sobras

Elegia à Allegra

Allegra!

Mesmo à distância
Alegra-me tua existência
Allegra
Mesmo do frio
Alegra-me
com tua infância
Alegra-me porque nunca vi tanta lágrima
Alegra-me porque depois que cresci desaprendi
a vibrar de felicidade
e a cantar também
Tudo o que sei nesse infinito hoje
é chorar como criança
abandonada

Allegra, alegra-me!

Mais nada.

Em troca te darei, um dia, uma visita inesperada ao Canadá.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Criação

Escrever
Ver para crer?
Ler, ver, ter?

Verter idéias
sobre qualquer superfície
escrevo em pedras, papéis,
mãos, planícies...

Trafego entre o piegas
e um pedaço de damasco
invento sandices

escrevo
onde me perco
onde me acho
Tenho o que quero
Estou onde caibo

escrevo
mas não sei - exatamente - como faço
só sei que gosto

MLK, em 29 de janeiro de 2009

domingo, 21 de dezembro de 2008

Elegia a Augusto, o poeta concreto

Augusto é um angustiado que pela noite segue
A beber palavras
Será como eu?

Mas ele não se engasga

Augusto é um ghostwriter da névoa fina
Ele vê beleza nos olhos
Nos olhos de menina (nos olhos da poesia)

Ele vê uma beleza que a outros assassina
E a beleza que ele vê
Aos poucos me contamina

Augusto é um amigo imaginário
Que ninguém vê, nem mesmo eu
Mas ele deveria ser visto

Colocado num pedestal

Poesias modernosas
Tom semi-angelical

Augusto é um aficionado pela vida:

Vida poética
Estrada desconexa
Poema concreto
Formas e setas,
Muitas setas!

Eu nunca esqueci do Augusto que não conheci.


Em 07 de maio de 2005.

Clamor

Queria poder gritar
para todos poderem ouvir
uma só verdade: eu também sei mentir!

Voz interior

Sou artista.

Quem não vê?
Se não me vê ao longe
que não me sinta.
Estou distante.
Ando sumida.

Sou artista.

Meu ar triste c a m i n h a.
Ando despercebida
mesmo que não passe
desapercebida pela vida.

Sou artista e ninguém sabe.
Sou artista, mas ninguém vê.
Sou artista VIVA, embora viva por viver...
nesses tempos em que estou
enARTrISTecidA.

Bichos da Estação

Cavalos pianisticamente galopando
Chegam em suas casas aladas e vão cochilar.
Belo, tão belo é o balé das águias anoitecendo,
Sementes respingando,
Cheiro de terra moendo,
Que os peixes, submersos, vão condimentando
A gigantesca sopa de água e sal

As flores giram e giram obtusas
Os pássaros beijam
As asas freiam
O vento precisa seguir
Os pêlos se agitam
A lua amanhece aflita junto ao sol
É hora de chegar ou partir?

As vozes passam, os grunhidos ficam
São os mesmos latidos, miados, uivos, zumbidos...
Os mesmos sons matutinos e notívagos de outrora

As vozes ferozes, não.
Estas mudaram. Envelheceram.
Um dia, todas mudas ficarão
Para serem, enfim, obrigadas a escutar

O canto dos bichos da estação

Reflexões

Quanto tempo cabe
Nessa hora que me carrega
Nesse tempo que me aprisiona
Na solidão que afirma
Na mão que nega?

Quanto tempo cabe
Em mim e no resto do mundo
No intervalo entre o riso e o soluço?

Quanto tempo cabe
Nesse instante
E no outro?
Numa poesia, num assobio...
No último suspiro de um morto?

Quanto tempo cabe
Na imensidão terrestre
No amadurecimento
De frutas silvestres
Na coloração de um verde agreste?

Quanto tempo cabe
No espaço de uma página lida à outra virgem?
Num beijo breve, num abraço carente?
Quanto tempo cabe na gente?

O tempo que cabe em mim
Não é o tempo que cabe em ti
E o que sinto dentro de mim
Aqui se esvai...
Daí o desencontro
Daí o tempo ser tão pesado e cruel
O amor se vai com o vento:
devagar.
Enquanto eu divago neste papel
a te esperar